O adolescente e a família

Título: O adolescente e a família
Autor(es): R. C. Hallal
Ano: 1993
Periódico: Revista Brasileira de Sexualidade Humana
Volume: 4
Número: 2
Páginas: 174-177
Tipo de Artigo: Opinião
ISSN: 0103-6122
Língua: Portuguese

Resumo: Um dia destes o amor chegou gentil e silencioso à minha casa. Vestido na forma de carta, insinuou-se na caixa de correspondência, como dedicatória escrita e inesquecível. Entrou por debaixo da porta e alojou-se no colchão dos meus filhos adolescentes. Não sei bem o que lhes aconteceu ou em que lugares imaginários estiveram. O resultado de semelhante encontro foi um colchão desvirginado, marcado pela mancha do prazer solitário e insuficiente. O amor entrou sob a forma de música repetitiva e com o volume dos obesos. Foi forma de chave na gaveta que guardou um lenço com perfume, um guardanapo que revelava um poeta improvisado e pela imaginação de futuros não acontecidos, tornando pai e mãe insuficientes, não por causas nossas, senão pela própria ilusão que se chamava naquele dia Joana, Maria ou outro qualquer nome de mulher; ou por alguma forma de buscar palco para o desejo de serem homens ou amantes. Percebi sentirem ser desnecessário confessar-lhe que não me necessitam mais como crianças. Fraternalmente, invadem minhas gavetas desnudando minha possibilidade de escolher cuecas e meias. Desaparecem magicamente minhas lâminas de barbear e sei serem eles quando algum corte lhes denuncia a inabilidade de quem as usa há tão pouco tempo. Seus pijamas ficaram curtos e dobraram a porção de comida, do mesmo modo que eu a diminuo. Nos seus vocabulários ainda não se imprimem o colesterol e o ácido úrico. O telefone já não me pertencia com tanta exclusividade. E o pior é que eles me injetam a vida e não me perguntam se estou preparado para o excesso de oxigênio. Não me sabem de pernas cansadas e me convidam para o futebol. Não me imaginam mais herói. Usam e abusam do meu sim e se decepcionam facilmente com o meu não.

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