Um olhar sobre o V Colóquio Internacional de Estudos sobre homens e Masculinidades

Em janeiro de 2015, tive o prazer de participar, pela primeira vez, do Colóquio Internacional de Estudos sobre homens e Masculinidades, na sua quinta versão, na cidade de Santiago do Chile, entre os dias 14 a 16. O encontro foi organizado por: Fundación Cultura Salud – EME; Núcleo de Género y Sociedad Julieta Kirkwood, Departamento de Sociología, FACSO e o Centro Interdisciplinario de Estudios de Género CIEG, Departamento de Antropología, FACSO, ambos Núcleos da Universidade do Chile.

O encontro ocorreu na Faculdade de Ciências Sociais da Universidade do Chile, considerada uma referência de estudos sobre gênero na América Latina. Com mais de 200 trabalhos, diversos convidados internacionais – referencias mundiais - e 250 participantes de diversos países, o Colóquio teve como objetivo principal problematizar a masculinidade e entender como se opera o patriarcado nos homens. Tive contato com diversos pesquisadores e estudantes brasileiros, porém um grupo da cidade de Recife (PE) chamou-me a atenção pela participação ativa e integrada com o evento, trata-se pesquisadores do Núcleo de Pesquisas em Gênero e Masculinidades (Gema), da Universidade Federal de Pernambuco; e do Instituto Papai (PE).

Neste evento, descobri um caminho importante para discutir sobre masculinidades, ou melhor, “como se fazer homem em tempos do feminismo”. Os estudos sobre masculinidades compreendem uma série de processos desenvolvidos no mundo durante os últimos 30 anos, que se propõem repensar a construção da identidade e gênero dos homens em um meio de mudanças políticas e sociais impulsionados pelo feminismo. Esta contextualização inspirou o tema central do V Colóquio: “O Patriarcado no século XXI: mudanças e resistências.”

Dentre os temas mais discutidos, encontram-se a produção da construção da identidade do sujeito masculino; a masculinidade hegemônica; a possibilidade de desnaturalizar a condição de subordinação das mulheres e também a condição dos homens, através da resignificação e reinterpretação o que implica ser homem e mulher na nossa sociedade; a masculinidade exercida também pelas mulheres; o patriarcado como um processo histórico e contingente, que vitimiza tanto homens como mulheres; a conservação dos privilégios, herança do patriarcado, por parte dos homens; a persistência de regras estereotipadas e segregadoras para homens e mulheres; a violência dos homens; o femicídeo (classificação dada pelo movimento feminista para o assassinato sexista de mulheres); a configuração de novas masculinidades; a masculinidade e a crise da adultez; a conversão em ser pai nos tempos modernos; o mundo doméstico com a participação dos homens; e a diversidade de gênero.

Nesta oportunidade, apresentei o trabalho, fundamentado no tema de minha dissertação de Mestrado (UGF/RJ) - estereotipias de gênero em homens policiais civis – que rendeu calorosas discussões e a meu sentimento de profundo agradecimento por estar fazendo parte de ricas produções intelectuais.

Como conclusão do Colóquio revela-se que o patriarcado emparelha-se com um sistema de domínio que tem como base a economia capitalista, o racismo e o adultocentrismo. Por isso, ressalta-se que é fundamental rever permanentemente nossas condutas, pois o patriarcado e o machismo infiltram-se nos lugares mais inusitados e adquirem formas não tão tradicionais de se manifestar, reproduzindo ideologias baseadas em ordenamento de gênero com profundas desigualdades e injustiças sociais.

“A lo que nos está llevando esta discusión es que se puede ser hombre, colaborativo, solidario, tierno y no hay que desarrollar el lado femenino de la masculinidad; sino que hay que desarrollar ese aspecto de la masculinidad que ancestralmente parece que tuvimos los seres humanos y que por esta revolución del patriarcado se instalo como una negación para los varones.” (Klaudio Duarte – sociólogo, acadêmico, pesquisador da Universidade do Chile)

Em 2017, teremos o VI Colóquio Internacional de Estudos sobre Homens e Masculinidades, e desta vez no Brasil, na cidade de Recife, organizado pelos grupos referenciados no presente texto. Parabenizo a fantástica iniciativa brasileira para os estudos sobre gênero e sexualidade.


Yeda Portela
Associada SBRASH

Psicóloga Clínica; Sexóloga (UGF/RJ); Diretora-Tesoureira da Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH); Responsável pelo Setor de Psicologia do Hospital da Polícia Civil; Inspetora de Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro; Instrutora na Academia de Polícia Civil do Estado do Rio de Janeiro; Pesquisadora da FIOCRUZ: Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana; Doutoranda na Facultad de Humanidades y Artes, Programa de Doctorado, Cohorte Especial, Universidad Nacional de Rosario (UNR), Rosario/Argentina com a investigação: La situación actual de la educación/orientación sexual en las escuelas del município de Rio de Janeiro: dialogismo o mutismo. Previsão de Defesa da Tese: Julho/2015)

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