Notas sobre o 18º Congresso Latinoamericano de Sexologia y Educación Sexual

A Sociedade Brasileira de Estudos em Sexualidade Humana (SBRASH) se fez presente no 18º Congresso Latinoamericano de Sexologia y Educación Sexual, que aconteceu em Madri no mês de outubro  2016, com  o Simpósio Salud Sexual, Tecnologia y Educacíon. Participaram do Simpósio SBRASH as Diretoras  Lina Wainberg, Ana Canos e Raquel Varaschin. Outros colegas brasileiros também estiveram presentes compartilhando seu conhecimento através de mesas redondas, cursos e apresentação de pôster. Foram quatro dias intensos repletos de atividades. A seguir uma pequena amostra do que vimos por lá.

 Simpósio da SBRASH

Lina Wainberg apresentou o trabalho sobre a perspectiva da Psicologia Positiva e a proposta de aplicação deste paradigma para compreensão da satisfação sexual e bem-estar sexual. Ana Cristina Canosa explanou sobre sua vivência na coordenação técnica de um reality show sobre a temática conjugal, destacando a tendência machista que se revelou durante o programa e as origens emocionais dessa postura.  Raquel Varaschin desenvolveu um levantamento das novas tecnologias na busca de parceiros afetivos e sexuais e os benefícios e prejuízos na nova geração.

Educação em Sexualidade

O congresso apresentou diversas mesas-redondas, temas livres e pôsteres sobre a temática da educação em sexualidade. Foi possível verificar que os educadores dos países vizinhos do Brasil têm se empenhado para implantar programas de educação em sexualidade pelos mesmos motivos brasileiros: diminuir as desigualdades de gênero, promover o conhecimento, combater o bullying diante da diversidade sexual, adequar o uso das novas tecnologias, debater a exposição do corpo, a prevenção de abuso e a pornografia infanto-juvenil (um dado que nos chamou a atenção é que, a cada hora, 228 crianças, principalmente meninas, são exploradas sexualmente na América Latina!!), além dos clássicos problemas relacionados à gravidez indesejada na adolescência e as ISTs.

Diferentemente do Brasil, alguns países, como Cuba, têm programas bastante integrados e sólidos, como o Educación Integral de la Sexualidad, onde há uma tentativa de interseção de vários ministérios (educação, cultura, saúde, entre outros) para capacitar funcionários no acolhimento e orientação da comunidade. A orientação para policiais, por exemplo, é periodicamente realizada, já que são os que se deparam diretamente com vários problemas sociais relacionados à homofobia, à transfobia, à prostituição, à violência e ao abuso sexual. É importante ressaltar que Cuba tem, também, outros problemas motivados por uma população machista – observação realizada pela maioria dos educadores latino-americanos sobre as dificuldades enfrentadas em seus países.

Outro ponto comum que compromete os programas de educação em sexualidade é a repercussão sobre ideologia de gênero. Na Colômbia, por exemplo, houve inúmeras manifestações públicas, apoiadas por psicólogos e universitários, contra a discussão sobre gênero nas escolas, cuja justificativa é o uso do termo “ideologia de gênero” –expressão criada por grupos ultraconservadores que desejam manter a heteronormatividade a qualquer custo. Alguns países cederam à pressão, como foi o caso do Brasil, retirando a palavra “gênero” do Plano Nacional da Educação (PNE) – tentando eliminar, portanto, qualquer iniciativa nesse sentido.

De qualquer modo, todos os educadores encontram, de alguma forma, espaço para o debate. No Brasil, ao menos, está claro que é a disposição da direção escolar em fazer o trabalho que garante ao educador legitimidade para desenvolvê-lo e em enfrentar a resistência de familiares dos alunos. Marcos legais internacionais e nacionais, que amparam o profissional no trabalho da educação em sexualidade, existem muitos!

Quanto ao tema do erotismo da adolescência, foi consenso que para o desenvolvimento do erotismo é preciso certa liberdade. Na adolescência ele está em franco desenvolvimento e isso se apresenta como um desafio, tanto para eles, por inexperiência e insegurança, quanto para os adultos, que passam boa parte do tempo lhes impondo determinadas condutas. Há uma tendência em refrear os jovens por serem considerados um grupo vulnerável que precisa transgredir. Deixá-los livres não é uma tarefa simples, porque o erotismo pode ser expresso de variadas maneiras, inclusive deletérias ao exercício da sexualidade. Concorda-se, por isso, que tratar sobre o desejo e a resposta sexual, ou seja, sobre prazer e práticas sexuais é fundamental em qualquer programa de educação em sexualidade, auxiliando-os na reflexão sobre os conceitos de intimidade, privacidade, desejo, fantasia e suas inter-relações.

Foi também abordado a importância dos projetos inclusivos na educação sexual. Incorporar a família – e também os funcionários da escola – nos projetos de educação em sexualidade tem sido uma estratégia para sua maior efetividade. O uso de jogos dramáticos, pesquisas e filmes, por exemplo, faz parte da metodologia participativa que tem melhor resultado no sentido de envolver e estimular a reflexão.

Muitos pesquisadores latino-americanos apontaram a urgente necessidade de formar os profissionais que lidam diariamente com crianças, adolescentes e jovens, seja na escola ou em outros ambientes comunitários, antes que eles trabalhem o tema da sexualidade, haja visto que a história de cada um traz componentes bastante distintos e nuances culturais, e podem influenciar negativamente os jovens, no sentido de perpetuar preconceitos e desigualdades, além de fomentar uma ideia de sexualidade permeada por medos e culpas.

Sexualidade na Clínica

Na área clinica, Juan Carlos Kusnetzoff, um dos representantes teóricos no estudo da psicanálise, afirma sem clemência que a única área em que a psicanálise limita-se no tratamento, é a área da sexualidade. Afirma que a talking cure não funciona para uma área que requer de se FAÇA algo. Argumenta que o tratamento das problemáticas sexuais requer desafios práticos. Sustenta que todas as mulheres possuem a capacidade orgásmica e que manifestação particular de cada mulher deve ser respeitada. Corrigir as falsas expectativas em relação ao orgasmo e a busca da subjetividade de cada mulher parece ser o caminho de tratamento da anorgasmia. Além disso, propõe uma proposta de intervenção paradoxal para a anorgasmia feminina.

Em curso sobre Inteligência Erótica, a diferenciação entre desejo sexual e amor é abordada. Partem da perspectiva que possuem origens diferentes, onde o desejo impulsionaria ao encontro com o outro e o vínculo afetivo ativaria modelos internos.

No entanto, o espaço psicológico que emerge entre esses dois fenômenos só se dá de forma saudável quando há um bom equilíbrio entre autonomia e dependência. A diferenciação do EU se faz necessária para a existência da intimidade. É salientado que pode ocorrer um dano onde houver o exercício exagerado da democracia na relação sexual. Cada um deve buscar o que deseja, já que geralmente é diferente do que o parceiro quer. Por fim, a necessidade de amar a si mesmo e auto-conhecimento como fundamentais para a inteligência erótica.

Ainda foram apresentadas propostas terapêuticas com o as Sistêmico Intersubjetivo e a Cognitivo-Comportamentais. José Bustamont abordou questões da dinâmica dos casais nas disfunções sexuais, como se comunicam, mensagens explicitas ou implícitas, crenças e os papéis desenvolvidos na relação. Por outro lado, Pietruszka de Lebel, explora tema sobre a comunicação tecnológica como uma nova forma de exercer a condição de seres sexuados, com o sexo virtual. Jaqueline Brendler observou que 63% das mulheres negam a existência de problemas sexuais, abordando o tema sobre o que os sexólogos devem saber sobre sexualidade feminina.

Também foi discutido sobre a necessidade dos profissionais de saúde sexual considerar a condição de exercer uma intervenção integral e integrada frente a múltiplas realidades dos pacientes, E neste caso, a importância de uma visão e ação transdisciplinar para uma interpretação mais holísticas dos fatos e fenômenos. 

Esperamos que desfrutem das notícias e estimulamos participarem dos próximos eventos!

Lina Wainberg – Diretora de Titulação
Ana Cristina Canosa – Diretora de Publicação
Raquel Varaschin – Diretora de Relacionamento
Diretoria da SBRASH  Gestão 2016-2017

Lina Wainberg  apresentou o trabalho sobre a perspectiva da Psicologia Positiva e a proposta de aplicação deste paradigma para compreensão da satisfação sexual e bem-estar sexual. Ana Cristina Canosa explanou sobre sua vivência na coordenação técnica de um reality show sobre a temática conjugal, destacando a tendência machista que se revelou durante o programa e as origens emocionais dessa postura.  Raquel Varaschin desenvolveu um levantamento das novas tecnologias na busca de parceiros afetivos e sexuais e os benefícios e prejuízos na nova geração.

 

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